Os estatistas, o restaurante a quilo e o livre mercado

Hoje vou almoçar com alguns amigos estatistas.

Eles sugeriram um restaurante a quilo, porque assim cada um tem livre-escolha para pegar o que quiser.

Perguntei se esse sistema não seria injusto, já que alguém poderia pegar algo ruim, ainda que sem querer; e, assim, teria um resultado pior que o dos demais.

Achar que a livre-escolha leva a eficiência e qualidade no prato de todos seria, portanto, uma falácia.

Além disso, poderia ocorrer de acabar algo quando alguém fosse pegar, e assim nem todos teríamos a mesma igualdade de oportunidades.

Isso porque a fila do restaurante a quilo implica que uns terão de pegar comida antes dos demais; a fila é, em sua essência, um mecanismo de promoção de desigualdades.

O problema demanda, assim, uma solução racional; deliberada e centralizada.

Sugeri então uma assembléia, e que juntos votássemos pela escolha de um mesmo prato de comida para todos.

Com as devidas agências de fiscalização, para garantir que saiam da cozinha com a devida igualdade.

Sugeri que incluíssemos na pauta, ainda, as contingências do almoço. Deveríamos decidir que, caso tivéssemos uma infecção alimentar, iríamos juntos ao mesmo hospital.

Não rolou.

Disseram-me que a preocupação não era justificável.

Que o fato de alguém ter um prato melhor não é causado por alguém ter um prato pior.

E que os riscos inerentes ao processo da assembléia eram maiores, bem maiores, do que os possíveis prejuízos com os pratos ruins que eventualmente escolhêssemos.

E que a assembléia poderia até ser uma boa ideia, mas burocratizaria demais o problema, e no final acabaríamos sem almoçar.

Quiseram mesmo, enfim, foi manter a livre-escolha. Inclusive para as contingências.

(Esqueci de lhes dizer que, não fosse a rede particular, a contingência da infecção já estava definida autoritariamente: é SUS e acabou a conversa; mal sabem eles, mas enfim).

De todo modo, admiro o fervor deles com a liberdade.

Só falta convencê-los de que a liberdade da livre-escolha é boa em todas as outras áreas da vida também, e não só durante o almoço.

Antecipo dificuldades, embora esteja esperançoso.

 

Texto criado por Gustavo Maultasch – Diplomata, doutorando em administração pública pela Universidade de Illinois-Chicago

Eric Vasconcelos Autor

Formado em Administração, desenvolvedor de sites e aplicativos, empreendedor, voluntário de vários programas sociais e investidor de criptomoedas.

Deixe uma resposta