O ocaso da esquerda no Brasil

Desde a redemocratização do Brasil, em meados dos anos 1980, a esquerda tem se fortalecido no país. Teve um crescimento até atingir o ápice na década de 2000, para começar a minguar no início desta década, com a falência do modelo econômico pregado por ela, de grande protagonismo estatal.

Para entendermos o fenômeno, é bom voltarmos algumas décadas na história. Na década de 1960 havia uma grande polarização do mundo, com busca de áreas de influência por parte das duas superpotências de então, os EUA e a URSS. O lado comunista havia tido sucesso na revolução cubana de 1959 e isto estimulou a exportação da revolução para outros países da América Latina. O Brasil estava entre os alvos, havia grupos com a intenção de repetir aqui o movimento revolucionário do país caribenho.

Antecipando-se a isto, dada a crescente agitação da sociedade e a fragilidade institucional do governo de João Goulart, os militares deram um golpe de estado em 1964. A ideia era impedir o avanço do comunismo, portanto, a ditadura perseguiu a esquerda no país. Ironicamente, implantaram um modelo econômico desenvolvimentista que hoje é defendido pela própria esquerda brasileira. Este modelo trouxe o “milagre econômico” do início da década de 1970, mas veio cobrar sua conta já nos anos finais desta década, somado à crise mundial do petróleo. Sendo assim, no início dos anos 1980, o modelo estava esgotado e o país estava quebrado, o que fez com que o governo militar se exaurisse e redemocratizasse o país.

Ora, como a ditadura perseguiu a esquerda, nada como colocar nela a pecha de “de direita”, apesar das medidas econômicas adotadas não serem nada liberais. Como a ditadura saía de cena em baixa, ser “de direita” no Brasil era motivo de vergonha, tanto que politicos de direita se intitulavam como “de centro” para fugir da pecha de defensores da ditadura. Até o partido que se originou na defesa do governo militar, o PDS (que veio da ARENA) se intitulava Partido Democrático Social (o “Social” numa clara alusão a bandeiras de esquerda). A esquerda começou a ver o seu crescimento. O PT se fortaleceu muito nesta década, principalmente entre a elite intelectual e no meio universitário: era dos poucos partidos ideológicos e tinha militantes que defendiam espontânea e gratuitamente o partido e seus ideais. A Constituição de 1988, que prevê forte presença do Estado na economia, tem grande influência das propostas defendiras pela esquerda.

Na década de 1990, enquanto o comunismo falia no mundo, a esquerda ganhava força no Brasil, mas sobreveio o plano Real, que debelou o inimigo brasileiro de longa data: a inflação. Assim foi eleito Fernando Henrique Cardoso, o FHC, um assumido socialista fabiano, mas com uma proposta mais liberal do que a esquerda gostaria. Porém, para conseguir a reeleição, teve que tomar medidas irresponsáveis que comprometeram o seu segundo mandato, jogando o país em uma crise.

Com o fracasso do segundo mandato FHC, Lula prometeu dar continuidade às políticas de FHC na “Carta ao Povo Brasileiro”, ganhando a confiança dos mercados e conquistando eleitores que nunca haviam votado no PT. Finalmente conseguiu ser eleito, ironicamente após abandonar bandeiras históricas. Manteve em seu primeiro mandato o que prometera na carta. Após a crise de 2008, seu governo começou a abandonar os princípios de responsabilidade fiscal e começou a flertar com o velho desenvolvimentismo. Isto perdurou durante o governo Dilma, que devastou as contas públicas, repetindo o que os militares haviam feito 40 anos antes.

No campo judicial, a aura de honestidade e de transparência foi destruída pelo escândalo do Mensalão em 2005. Em 2014 estourou a Operação Lava Jato, que mostrou que a farra do Mensalão continuava. As cifras destes escândalos chegam aos bilhões e mostram que a corrupção permeava praticamente todo o governo petista.

Até chegar ao poder, o PT se dizia o bastião da honestidade na política e prometia um país mais justo. Prometia que quando chegasse ao poder lutaria contra a corrupção e tornaria melhor a vida de todos os brasileiros. Desta forma, puxou para si as bandeiras da esquerda. Ao fim do governo Dilma, já era claro para todos que nenhuma das promessas havia sido cumprida. Ficou patente que os 14 anos de governo petista foram mais um engodo de políticos que tinham ideias econômicas equivocadas e que buscavam tão somente o enriquecimento pessoal às custas do Estado.

Os 14 anos do PT colocaram o país numa crise sem precedentes em sua história e envolvido num escândalo de corrupção de proporções nunca vistas. Para o povo, era a prova de que a esquerda, no fim das contas, estava errada e era tão suja (se não mais suja) quanto todos os adversários políticos que receberam a pecha de “direita”. As universidades, antigos redutos quase que exclusivamente esquerdistas, estão começando a ver uma pluralidade de ideias com a criação de grupos liberais mais voltados à direita econômica democrática.

As manifestações mais recentes foram a prova do ressurgimento da direita através do liberalismo e do ocaso da esquerda no Brasil. Enquanto as manifestações pelo impeachment de Dilma atraíam para as ruas milhões de pessoas que compareciam espontaneamente, as manifestações organizadas pela esquerda trouxeram para as ruas muito menos gente. Hoje em dia, a esquerda não consegue mais sequer arregimentar militantes que acreditem em sua causa. Ganharam o apelido pejorativo de “mortadelas” pois precisavam subornar os manifestantes com camisetas, dinheiro e um sanduíche de mortadela para participarem de seus protestos.

A manifestação da quarta-feira, dia 24 de maio, foi a prova emblemática disso. Para encher a Esplanada dos Ministérios, precisaram “importar” manifestantes do país inteiro em 500 ônibus. E estes manifestantes, em sua maioria, estavam lá apenas porque ganharam a viagem. Este evento, organizado por movimentos sindicais, foi uma tentativa desesperada de mostrar força no momento em que o congresso vota o fim da obrigatoriedade da contribuição sindical. Isto golpeia de morte os sindicatos que existem apenas para sustentar seus líderes, não para lutar por seus trabalhadores. É um ato de desespero destas elites sindicais que estão vendo que seus privilégios, tão protegidos durante os governos do PT, estão ameaçados.

Quem sobrou da esquerda hoje? Políticos que agarram-se a seus mandatos e dirigentes sindicais que não querem perder a farra da arrecadação fácil do “imposto” sindical, cujo fim é previsto na reforma trabalhista. A esquerda, antes com discursos de igualdade e de honestidade, hoje se resume a uma elite sindical e política que tenta desesperadamente manter seus privilégios. Nem seguidores têm mais, precisam comprar uma suposta legitimidade popular com mortadela.

Carlos Mauricio Farjoun Autor

Bacharel em Administração pela USP, Servidor Público Federal e estudante de Direto na UnB.

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